18 de dezembro de 2005 — o dia em que eu não vi, mas senti

 18 de dezembro de 2005 — o dia em que eu não vi, mas senti

18 de dezembro de 2005. Um domingo de um Brasil ainda analógico, muito antes dos smartphones, dos aplicativos e da ansiedade de acompanhar cada lance em tempo real. Naquele dia, eu não estava diante da televisão vendo o jogo mais importante da história recente do meu time. Eu tinha apenas dez anos e precisei acompanhar meus pais a um compromisso, torcendo silenciosamente para que, na casa que visitaríamos, houvesse uma TV ligada na decisão entre São Paulo e Liverpool.

Não havia.

O jogo eu acompanhei pelo silêncio. Pelo ouvido colado no mundo. Pela expectativa infantil de captar qualquer barulho que denunciasse o que acontecia do outro lado da cidade — talvez do outro lado do planeta. Nada. Nenhum grito. Nenhuma buzina. Nenhuma explosão de alegria. Foram mais de duas horas de um silêncio quase cruel, até que, de repente, o som veio. Não em forma de notificação, como hoje aparece nos celulares, mas em fogos de artifício, num barulho ensurdecedor que anunciava: o São Paulo era tricampeão do mundo.

Minha reação foi imediata e desproporcional, como só uma criança e um torcedor sabem ser. Saí correndo pela rua, subi num banco de praça e gritei que o mundo era nosso. Só depois percebi o detalhe quase trágico: atrás daquele banco havia uma bateria de fogos de artifício que estava prestes a ser acionada. Não explodiu em mim por um detalhe mínimo da providência — um senhor, dono dos fogos, que gritou comigo segundos antes da explosão. Naquele momento, nada disso importava. O que importava era simples, absoluto e definitivo: o meu time era tricampeão do mundo.

Eu não vi o jogo mais importante da história do São Paulo que aconteceu enquanto eu existia. Mas naquele dia eu entendi, de verdade, o que o canto da torcida quer dizer quando afirma que São Paulo é sentimento. Para sentir não é preciso ver. Não é preciso estar presente. Basta essa conexão quase mística, cósmica, que não se explica pela lógica, nem se mede por estatísticas.

Vinte anos depois, o que resta é uma saudade agridoce de um tempo que parece cada vez mais distante. Já não somos soberanos. Aquilo que era orgulho — estrutura, gestão, conquistas — hoje parece ruína, poeira de um passado glorioso que insiste em não se repetir. O peso das três estrelas já não intimida como antes. O Morumbi já não assusta como outrora. O mundo mudou, e o São Paulo também.

Mas se há algo capaz de salvar o Tricolor Paulista, não está em novos nomes, nem em promessas de reconstrução apressada. Está nesse mesmo fio invisível que me fez ouvir fogos antes de ver gols. Está no amor à camisa das três cores, passado de pai pra filho, de geração em geração, como uma herança que não se vende, não se negocia e não se abandona.

Porque títulos passam, elencos mudam, dirigentes falham. Mas o sentimento permanece. E enquanto houver alguém disposto a subir num banco de praça — mesmo sem ver o jogo — para gritar que o mundo é nosso, o São Paulo nunca estará, de fato, derrotado.

Por: Gabs Maciel

Capitão do Tri, R. Ceni, eleito o melhor da final cumprimentando o Capitão do Liverpool, Gerrard

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